NOS LIMITES DO CORPO

Limites, passagens, fricções

Tania Rivera

O projeto da residência artística no Hospital da Mulher Heloneida Studart, em São João do Meriti, teve como ponto de partida um convite que me foi feito pela Dra. Ana Teresa Derraik Barbosa, sua Diretora Clínica, em 2012. Demonstrando uma notável compreensão clínica, institucional e artística, ela me disse que gostaria de ter artistas presentes no Hospital. Este lhe parecia um modo interessante de colaborar para a humanização da assistência e do parto na instituição, que já contava com indicadores importantes de excelência em atendimento hospitalar e iniciava um projeto nessa direção específica, seguindo os parâmetros recomendados pelos órgãos competentes.

A ideia entusiasmou-me de imediato. A produção contemporânea em arte busca, com frequência, um alargamento de suas fronteiras, explorando a relação com o outro em uma incidência social e política mais abrangente. Trata-se, para muitos artistas e trabalhadores no campo da arte, de pautar suas ações por um direcionamento ético que recoloca em outras bases as questões estéticas e os desloca do “mundo da arte”, circunscrito por museus, galerias, escolas e universidades, para contextos muito diversos, envolvendo questões sociais e trabalhando com grupos e comunidades específicos. Raras são as situações, contudo, em que tal trabalho se desenvolve em instituições – e é ainda menos frequente que ele se origine de um convite da própria instituição.

A instigante provocação da Dra. Ana Teresa me fez sonhar com um futuro no qual a arte não apenas se misturaria à vida – como queriam e querem tanto artistas, há mais de um século – como se tornaria uma espécie de poesia prática capaz de colaborar ativamente na construção de uma sociedade mais justa e “humanizada”. Este termo, que eu conhecia bem como psicanalista e professora universitária, por ter atuado durante alguns anos no campo da saúde mental, não deixou de me surpreender, no contexto deste projeto. Teriam nossos dispositivos sociopolíticos chegado ao nível de uma “desumanização”? E como isso se daria no contexto da assistência médica à gravidez e ao parto?

Parecia-me belo pensar a arte como aquilo capaz de nos “humanizar”. Talvez nossa humanidade jamais esteja dada de saída, mas deva ser buscada, incitada por intervenções, invenções, gestos. Encontros.

Para mim e a crítica e curadora Viviane Matesco, que convidei para comigo coordenar o projeto em seu início, não se tratava, nessa “humanização”, de os artistas cumprirem qualquer função direta na instituição, mas sim de estarem presentes “humanamente”, ou seja, de forma gratuita e desinteressada. Não nos parecia interessante, por outro lado, levar manifestações artísticas para dentro do Hospital no intuito de divertir a equipe e os pacientes e seus acompanhantes, nem tampouco organizar ateliês ou oficinas para levar as pessoas a se envolverem elas próprias em algum tipo de produção artística ou artesanal.

Parecia-nos, antes, que devíamos apostar na simples presença dos artistas – do modo imprevisível como cada um deles fosse construindo ali seu lugar – como capaz de ativar algo no Hospital, em um nível micropolítico. E que deveríamos trabalhar sobretudo no sentido de dar lugar e voz à vivência de cada um, compartilhando experiências e questões ao longo de todo o projeto, sempre com a participação ativa e generosa da Dra. Ana Teresa. Era impossível prever como tais ações micropolíticas e artísticas em um sentido muto amplo viriam a se materializar, mas apostávamos que elas se disseminariam, de alguma forma, entre os atores sociais em jogo – artistas, pacientes, equipe, instituição, cidade.

Iniciou-se então a primeira etapa deste projeto, que não está presente como tal na exposição no Centro Municipal de Arte Hélio OIticica, mas fornece uma espécie de base e condição preliminar ao que tentamos nesse evento transmitir. Para aquele período, que durou cerca de oito meses, convidamos três artistas: Bárbara Boaventura Friaça, Letícia Carvalho e Roberta Barros. As três iniciaram acompanhando equipes de plantão em toda sua jornada de doze horas. Em reuniões frequentes com a presença da Dra. Ana Teresa, conversávamos sobre todas as questões que surgiam dessa vivência. O incômodo e o fascínio diante da crueza da carne humana nas salas de parto, o ambiente e as conversas da equipe durante as intervenções, as relações de poder entre os diversos profissionais e destes com as pacientes e seus familiares, o sofrimento e a alegria das mães, as perdas. A violência e o cuidado, dentro e fora do hospital, expandindo-se pela realidade (social, econômica, sexual, humana) que parecia girar e mostrar novas facetas.

Duas das artistas fizeram intervenções artísticas no hospital (a terceira, como que contaminada pelo ambiente, engravidou e suspendeu sua participação no projeto). Bárbara Friaça concebeu uma veste-útero que pendia em um dos corredores da instituição e um dia serviu de totem improvisado para a jocosa brincadeira tribal de uma equipe esgotada pela madrugada em plantão. Roberta Barros refletiu sobre a tendência dos médicos sugerirem nomes para os recém-nascidos e realizou uma performance na qual nomes de diversas pessoas – funcionários, pacientes etc – eram cuidadosamente guardados em luvas cirúrgicas sopradas como balões. O ponto alto dessas intervenções se deu com a fala destas artistas em um evento sobre direitos humanos e maternidade realizado no auditório do hospital, com a presença de uma platéia prioritariamente médica.

Vibramos ao ver as artistas fazendo suas intervenções nesse ambiente distante do mundo da arte e logrando emocionar de alguma maneira aqueles profissionais. Tal era o deslocamento que nos interessava e nos parecia capaz de promover alguma contaminação imprevisível, alguma transformação microscópica, enxertando poesia – e questionamentos – ali onde eles não são esperados.

A segunda etapa do projeto deveu seu impulso a Viviane Matesco, a quem ocorreu a ideia de submeter uma proposta ao edital de fomento às artes da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro de 2015 para tentar viabilizar o deslocamento na direção oposta e tentar levar o hospital à instituição artística sob forma de uma exposição. O Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (CMAHO) pareceu-nos de saída a instituição ideal para realizar tal projeto, devido à convergência de nosso projeto com a proposta de expansão tanto da compreensão da arte quanto de seu público desenvolvida pela atual gestão do Centro, dirigida por Izabela Pucu. Ao longo do processo, tivemos a alegria de ter a residência artística no Hospital da Mulher incluída no grupo “Arte e Cuidado”, coordenado pelo CMAHO e contando com diversos parceiros que desenvolvem trabalhos na interface entre arte e saúde.

A presente etapa teve sua equipe curatorial modificada – com a substituição de Viviane Matesco pelo artista e curador Luiz Sérgio de Oliveira – e contou com três novos artistas, que se juntaram a Roberta Barros: Cristina Salgado, Gabriela Mureb e Hélio Carvalho. A presença do grupo no Hospital da Mulher distribuiu-se por cerca de nove meses, balizada por encontros nos quais discutíamos questões políticas, assistenciais e artísticas, sempre acompanhados pela Dra. Ana Teresa Derraik.

Os artistas desenvolveram de modos singulares suas vivências na instituição. Gabriela Mureb fascinou-se pelos claro-escuros da sala de cirurgia, pelos gestos precisos das mãos com suas luvas brancas destacando o escuro do interior do corpo, aberto. Roberta Barros misturou-se às salas de espera – da consulta, do exame, do bebê – e propôs-se tecer com linhas e a eventual ajuda das pacientes um grande fio que compõe, aos poucos, uma grande barriga grávida. Hélio Carvalho, vestido com uma roupa que mistura elementos e cores de todos os diferentes uniformes dos funcionários do hospital, idealizou seu Deambulatório como um dispositivo de encontro que perambula pelas dependências da instituição e transforma-se em uma mesa com material de desenho para incitar à conversa pacientes, familiares e equipe.

Por sua vez, Cristina Salgado acompanhou de perto, com intensidade e emoção, a realização de conversas sobre sexualidade com adolescentes de uma escola próxima e o acompanhamento clínico de algumas delas em um programa-piloto de contracepção heroicamente concebido e viablizado pela Dra. Ana Teresa, e convidou duas das jovens do grupo a participarem da montagem de sua escultura A Grande Nua no Hospital da Mulher. As camadas de tapete-carne foram reviradas nas curvas infinitas que compõem esta peça e estiveram expostas durante algumas semanas em uma das salas de espera da instituição, sobre uma das muitas longarinas ali existentes. No CMAHO, Cristina mostra um filme produzido durante essa montagem, alguns desenhos, uma pequena peça escultórica (uma assemblage, a bem dizer) e peças com projeções de imagens por refletores de luz.

Em cada um desses trabalhos pulsa o contato com as pessoas e a fricção da arte com as múltiplas questões – vívidas, complexas e delicadas – experimentadas no Hospital da Mulher Heloneida Studart. Esperamos que nesse pequeno catálogo eles continuem a disseminar sua delicada potência poética e sua tentativa de contribuir para a humanização da vida.


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