SOBRE ABORTAMENTO

Antes de mais nada, o conceito: abortamento é a interrupção da gravidez antes de 22 semanas de gestação ou com o feto pesando menos de 500 mg. Repare que no conceito digo apenas interrupção, não menciono a palavra expulsão. Curioso, não?

Formas clínicas de abortamento:

  • ameaça de abortamento: cursa com sangramento e/ou cólica, geralmente causado por pequeno hematoma atrás da placenta. 20% das gestações apresentam sangramento no início e 10% evoluem para abortamento inevitável. Nos 10% restantes, o organismo da mãe absorve o hematoma e a gestação segue em frente. A gravidez que segue não é “de risco”. A conduta nesse casos é fazer repouso moderado, evitar relações sexuais e atividade física intensa. Não há necessidade ficar acamada;

  • abortamento inevitável: quando o sangramento se exterioriza pelo colo uterino dilatado. Nesses casos a gravidez não vai adiante. O abortamento inevitável evolui para abortamento incompleto ou abortamento completo;

  • abortamento completo: todo o conteúdo uterino é expulso do útero. Placenta, ovo, membranas. Não há necessidade de procedimentos médicos para esvaziar o útero. O corpo feminino cuidou de tudo. Cabe ao profissional de saúde ouvir da mulher sobre seu planos futuros. Ela quer engravidar novamente? Ela não quer engravidar por ora? A contracepção ou os cuidados para uma futura gravidez são providenciados, então;

  • abortamento incompleto: apenas parte do conteúdo uterino é expulsa, sendo necessária intervenção para que haja o esvaziamento total. Essa intervenção tem várias naturezas, pode ser apenas a observação em ambiente hospitalar onde a mulher é monitorizada quanto ao sangramento, com suporte de analgésicos. Quem sabe esse abortamento incompleto não evolui para um abortamento completo? O acompanhante de escolha da mulher deveria estar ao seu lado. A Lei brasileira só garante a presença do acompanhante nos casos de trabalho de parto, parto e pós parto, mas puxa vida! É um momento tão delicado. Por que não acolher uma pessoa querida dela junto com ela? Ela ficaria mais confortada. Se fosse com você? Você não gostaria? Quando há necessidade de intervenção, duas possibilidades se apresentam: a aspiração manual intra uterina (AMIU) que não requer necessariamente sedação, se a paciente estiver calma e concordar, repito: se ela concordar, basta anestésico local. Outra forma é a curetagem uterina, onde um instrumento conhecido como cureta é introduzido no útero e retira o conteúdo remanescente, nesses casos a anestesia é necessária. Em alguns casos uma medicação chamada misoprostol é introduzida alguma horas antes do procedimento. Trata-se de uma prostaglandina que imprime relaxamento e dilatação do colo uterino. Há casos ainda, que após o uso da medicação o abortamento evolui para a forma completa. Sem necessidade de intervenção cirúrgica.

  • abortamento retido: a gravidez é interrompida intraútero sem que o conteúdo uterino seja expulso. O coração do feto para de bater ou não se evidencia a presença de embrião à ultrassonografia. 50 a 60% das mulheres que passam pelo abortamento retido têm chances de evoluírem para abortamento completo em duas semanas. A conduta expectante nesses casos, portanto, deve ser considerada. É muito comum a paciente chegar assustada na emergência da maternidade com ultrassonografia na mão evidenciando ausência de batimentos cardíacos do feto ou um saco gestacional sem a presença de embrião em seu interior julgando tratar-se de um quadro de extrema gravidade clínica. A gravidade desses casos é psíquica, a descoberta da perda traz tristeza e frustração, além do desconforto de saber que aquele feto dentro da sua barriga não vive mais. É comum a vontade de resolver logo aquela situação. No entanto, a conduta expectante, dando uma chance do corpo feminino expulsar naturalmente o produto da concepção é a mais indicada, em grande parte desses casos. Algumas vezes a paciente chega à emergência encaminhada por um outro serviço onde um profissional descuidado não a proveu da acolhida necessária àquele momento de susto e luto e não prestou os esclarecimentos corretos quanto ao impacto real daquele evento no seu corpo. O profissional que a recebe na emergência, por sua vez, diante dessas circunstâncias, deve desconstruir o medo despertado anteriormente e fornecer informações técnicas sobre riscos, sintomas esperados, tempo de expectativa etc e junto com ela decidir sobre qual a terapia que será adotada. Infelizmente, não são todas as emergências que dispõem de profissionais com essa capacitação. Se a conduta expectante for escolhida é necessário marcar o retorno para acompanhamento e fornecer a mulher uma referência de atendimento para qualquer situação de emergência ou mesmo de insegurança da parte dela. Quando após o tempo combinado, ou a qualquer momento em que a mulher desista da conduta expectante, a indução ao abortamento pode ser realizada com administração de misoprostol. O misoprostol pode ser suficiente para causar abortamento completo ou pode ser que seja necessário o esvaziamento uterino por AMIU ou curetagem.

  • abortamento infectado: trata-se de quadro infeccioso que tem como sítio de origem o conteúdo uterino. Em princípio, todas as formas clínicas de abortamento podem evoluir para um quadro de abortamento infectado, mas não é a regra. O abortamento infectado é mais comum quando é provocado em condições insalubres e inseguras. Também é comum quando o abortamento é espontâneo e a mulher já portava uma infecção prévia. Em todos os casos de abortamento, seja qual for a terapêutica adotada, é importante monitorar os sinais de infecção, febre, queda do estado geral e secreção vaginal com odor são os mais sugestivos. O médico precisa ser consultado nesses casos. O tratamento antibiótico está indicado.

  • abortamento habitual: é a perda consecutiva de três gestações. Têm uma grande gama de causas possíveis e a investigação deve ser feita por médico especialista.

Todos os casos relatados acima constam nos protocolos de atendimento das maternidades brasileiras. O médico ou qualquer outro profissional de saúde não pode deixar de prestar a assistência adequada alegando objeção de consciência em nenhum deles. Se o fizesse, ficaria caracterizado omissão de socorro. Nem mesmo se o abortamento foi auto provocado. A acolhida, esclarecimentos técnicos e possibilidades terapêuticas devem ser discutidas, entendidas e consentidas pela mulher. Um exemplo muito comum: paciente chega a emergência com quadro de sangramento após tentativa de abortar com uso de misoprostol obtido de forma ilegal. Cabe ao médico diagnosticar o quadro clínico. Trata-se de um aborto incompleto? O embrião foi expulso, mas ainda há restos placentários. Ele deve prosseguir com o procedimento que já está em curso. Outro exemplo: ela tentou abortar, mas não conseguiu seu objetivo. Procurou a maternidade porque sangrou, mas a gravidez prosseguiu, feto vivo, infecção descartada. Cabe ao médico acolher, orientar sobre os riscos do aborto ilegal e encaminhá-la para um serviço de pré natal. Sim. Porque estamos no Brasil. Se estivéssemos na África do Sul, Albânia, Áustria, Bangladesh, Bélgica, Bulgária, Canadá, China, Cingapura, Coréia do Norte, Cuba, Dinamarca, Eslováquia, França, Portugal, Inglaterra, Uruguai, Espanha, Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Itália, Grécia, Suécia, Suíça, Finlândia, Austrália, Japão, Camboja, Nepal, Zâmbia, Turquia ou Tunísia, poderíamos oferecer outras possibilidades.

No Brasil o aborto provocado é permitido em três situações:

  • em casos de estupro, Código Penal de 1940: um homem aceitaria o filho de outro homem dentro do seu núcleo familiar? De qualquer forma, a legislação visando proteger “a família” acabou por beneficiar a mulher. Não é necessário apresentar o boletim de ocorrência. Repito: não é necessário apresentar boletim de ocorrência. As maternidades que dispõem do serviço de aborto legal têm competência para realizar todo o trâmite burocrático e prestar assistência multidisciplinar que realizará a interrupção;

  • em casos de feto anencéfalo, desde 2012: o Supremo Tribunal Federal decidiu que obrigar a mulher a prosseguir com uma gravidez sabendo que o feto não sobreviverá após o parto fere o princípio constitucional da pessoa humana. Desde então, as gestações de feto sem cérebro evidenciadas por exame de ultrassonografia podem ser interrompidas, independentemente da idade gestacional. Uma curiosidade: qualquer outra mal formação, ainda que incompatível com a vida fora do útero não está contemplada nessa decisão.

  • em casos de risco de morte materna, Código Penal de 1940: a mulher geralmente já tem uma doença grave anterior à gravidez e as alterações causadas ao organismo materno pela gestação agravariam o quadro de tal forma que imporiam risco de morte à mulher. A descoberta da doença grave durante o pré natal seria outra possibilidade. O procedimento pode ser realizado em qualquer idade gestacional. Afinal de contas se a mulher morre grávida, o feto morre também.

Os três casos descritos acima podem ser passíveis de objeção de consciência por parte do profissional de saúde. Por esse motivo, é aconselhável que toda a mulher que tenha indicação de aborto legal procure uma instituição que seja referência nessa prática, pois certamente, são lugares onde o atendimento multidisciplinar imprimirá a assistência um caráter mais cuidados sob o ponto de vista da acolhida e entendimento da delicadeza da situação.

Sobre o aborto ilegal:

  • estima-se que de 600.000 a 1.000.000 de mulheres passam por abortos provocados em condições ilegais anualmente no Brasil, dentre elas, uma morre a cada 36h vítima de complicações causadas pelo procedimento. É como se um Boeing repleto de mulheres jovens fosse abatido todo ano no Brasil;

  • geralmente as mulheres que morrem na tentativa de abortar já têm filhos e essas crianças têm o futuro comprometido. Irmãos são separados, crianças vão para abrigos, ficam mais suscetíveis à violência doméstica,...;

  • faz parte do aborto inseguro a falta do aconselhamento pré e pós procedimento. O primeiro proporciona período de reflexão para a mulher que algumas vezes, desiste de prosseguir com a interrupção da gravidez. O segundo provê a mulher de contracepção eficaz que evita a recorrência de gravidez não desejada. Ambos diminuem taxa de aborto provocado;

Declaro que:

  • sou médica obstetra e ginecologista. O maior prazer do meu dia a dia é botar no colo de uma mãe um bebê saudável. Acredito que esse gesto seja a maior reverência que faço ao imponderável, à vida, ao amor;

  • a maior tristeza do meu dia a dia é fechar os olhos do corpo de mulher morta porque se submeteu a procedimentos horrorosos na desesperada tentativa de abortar;

  • não sou objetora de consciência;

  • não sinto culpa pelos abortos legais que provoquei;

  • durmo feito um anjo todas as vezes que me deito com esse intuito. Minto. Algumas vezes perco o sono pensando nas mulheres que me procuraram pedindo ajuda e por quem eu nada pude fazer;

  • sou brasileira. Trabalho no Brasil. Cumpro a Lei.

Referências:

  1. Rezende J, Montenegro CA. Rezende Obstetrícia, Guanabara Koogan, 13ª. Edição, 2016.

  2. Código Penal Brasileiro. Decreto Lei no. 2848 de 07 de dezembro de 1940.

  3. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 54. Relator Ministro Marco Aurélio Mello, Supremo Tribunal Federal, 2012.

  4. Unsafe Abortion, Global and regional estimates of the incidence of unsafe abortion and associated mortality in 2008, 6ª. Edição. World Health Organization (WHO).

  5. Abortamento seguro: orientação técnica e de políticas para sistemas de Saúde. 2ª. edição. 2016. WHO

  6. Atenção Humanizada ao Abortamento. Norma Técnica, 2011. Ministério da Saúde.


POSTS RECENTES
ARQUIVO
CATEGORIAS
TAGS